Leia trecho de 'Literatura e Política: Jornalismo em Tempos de Guerra'

29/02/2012 - 16h00 | da Folha.com
da Livraria da Folha
Texto baseado em informações fornecidas pela editora da obra.
Texto baseado em informações fornecidas pela editora da obra.
| Divulgação |
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| Livro reúne textos escritos para o jornal britânico "The Observer" |
Escrito por George Orwell (1903-1950), "Literatura e Política: Jornalismo em Tempos de Guerra" apresenta uma coletânea de textos publicados originalmente jornal britânico "The Observer", entre 1942 e 1948.
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"A Revolução dos Bichos" e "1984" são os livros mais conhecidos de Orwell. Aluno de Aldous Huxley (1894-1963), presenciou a Guerra Civil Espanhola e trabalhou como correspondente de guerra durante a Segunda Guerra Mundial. Orwell morreu de tuberculose.
Com tradução de Sérgio Lopes, o exemplar traz introdução escrita pelo professor de relações internacionais Arthur Ituassu. Abaixo, leia um trecho.
*
_8 de abril de 1945 _
O futuro de uma Alemanha arruinada
Bolsões de miséria rural não ajudam a Europa
À MEDIDA QUE SE ESTENDE o avanço sobre a Alemanha e a devastação lavrada pelos bombardeios aliados é mais e mais desnudada, é inevitável que três comentários venham à mente de quase todo observador.
O primeiro: "As pessoas em casa não têm a menor idéia disto aqui". O segundo: "É um milagre que eles tenham continuado a lutar". E o terceiro: "Imagine o trabalho para reconstruir tudo isso!".
É uma grande verdade que a dimensão dos ataques relâmpagos lançados pelos aliados à Alemanha continua ainda hoje desconhecida neste país, e sua importância na derrocada da resistência alemã é provavelmente muito subestimada. É difícil transmitir a realidade dos ataques aéreos por meio de jornais e rádios, e o homem nas ruas pode ser perdoado se ele imagina que o que fizemos à Alemanha nos últimos quatro anos é meramente o mesmo tipo de coisa que fizeram conosco em 1940.
Mas esse equívoco, que deve ser ainda mais comum nos Estados Unidos, traz consigo um perigo potencial, e os vários protestos contra os bombardeios indiscriminados que foram feitos por pacifistas e humanitários apenas confundiram a questão.
Mundo empobrecido
Bombardeios não são especialmente desumanos. A guerra em si é desumana, e o bombardeio, que é usado para paralisar a indústria e o transporte, e não para matar seres humanos, é uma arma relativamente civilizada. A guerra "normal" ou "legítima" é igualmente destrutiva em relação aos objetos inanimados, e imensamente mais destrutiva em relação às vidas humanas.
De mais a mais, uma bomba atinge uma parcela fortuita da população, enquanto os homens mortos em combate são justamente aqueles os quais a comunidade não poderia abrir mão. A população da Inglaterra jamais se sentiu à vontade com o bombardeio de civis e, sem dúvida, eles estarão suficientemente dispostos para compadecer-se dos alemães assim que os tiverem derrotado definitivamente, mas o que eles ainda não compreenderam - graças à sua própria comparativa imunidade - é a assustadora destruição provocada pela guerra moderna e o longo período de empobrecimento que agora se descortina diante de todo o mundo.
Caminhar pelas cidades arruinadas da Alemanha é sentir uma dúvida verdadeira sobre a continuidade da civilização, pois é preciso lembrar que não apenas a Alemanha foi atacada. A mesma desolação se estende, ao menos em trechos consideráveis, ao longo de todo o caminho desde Bruxelas a Stalingrado. E a destruição é ainda mais completa nas frentes de batalha do que nos alvos de bombardeios. Nos cerca de 500 quilômetros entre o Marne e o Reno não há, por exemplo, uma ponte ou um viaduto que não tenha ido pelos ares.
Milhões de desabrigados
Mesmo na Inglaterra, estamos cientes de que precisamos de três milhões de casas e que as chances de obtê-las num tempo mensurável parecem remotas. Mas quantas casas precisarão a Alemanha, a Polônia, a URSS e a Itália? Quando se pensa na espantosa tarefa de reconstruir Colônia, Essen, Hamburgo, Varsóvia, Budapeste, Cracóvia, Odessa, Leningrado e tantas outras cidades européias, grandes e pequenas - e reconstruí-las ao final de seis anos, durante os quais toda mão-de-obra disponível foi dissipada na produção da guerra - percebe-se que deverá transcorrer um longo período antes que os padrões de vida até mesmo de 1939 possam ser restabelecidos.
Ainda não sabemos a extensão total dos estragos causados à Alemanha, porém, julgando pelas áreas que foram até agora percorridas, é difícil acreditar na força dos alemães para pagar qualquer tipo de reparação, seja em bens ou em trabalho. Apenas para abrigar a população alemã, para pôr as fábricas danificadas para funcionar e para manter a agricultura alemã longe de um colapso após a libertação dos trabalhadores estrangeiros, será necessário todo o trabalho de que a população do país puder dispor.
Se, como atualmente se planeja, milhões de alemães forem deportados para os países vitoriosos a fim de trabalhar na reconstrução, a reabilitação da própria Alemanha será a mais lenta de todas. Após a última guerra, a impossibilidade de obtenção de reparações financeiras substanciais - em poucas palavras, de fazer o inimigo pagar pela guerra - foi finalmente alcançada. No entanto, bem menos generalizada é a percepção de que o empobrecimento de qualquer país se reflete desfavoravelmente em todo o mundo. Não há qualquer vantagem em transformar a Alemanha em uma espécie de bolsão de miséria rural.
_8 de abril de 1945 _
O futuro de uma Alemanha arruinada
Bolsões de miséria rural não ajudam a Europa
À MEDIDA QUE SE ESTENDE o avanço sobre a Alemanha e a devastação lavrada pelos bombardeios aliados é mais e mais desnudada, é inevitável que três comentários venham à mente de quase todo observador.
O primeiro: "As pessoas em casa não têm a menor idéia disto aqui". O segundo: "É um milagre que eles tenham continuado a lutar". E o terceiro: "Imagine o trabalho para reconstruir tudo isso!".
É uma grande verdade que a dimensão dos ataques relâmpagos lançados pelos aliados à Alemanha continua ainda hoje desconhecida neste país, e sua importância na derrocada da resistência alemã é provavelmente muito subestimada. É difícil transmitir a realidade dos ataques aéreos por meio de jornais e rádios, e o homem nas ruas pode ser perdoado se ele imagina que o que fizemos à Alemanha nos últimos quatro anos é meramente o mesmo tipo de coisa que fizeram conosco em 1940.
Mas esse equívoco, que deve ser ainda mais comum nos Estados Unidos, traz consigo um perigo potencial, e os vários protestos contra os bombardeios indiscriminados que foram feitos por pacifistas e humanitários apenas confundiram a questão.
Mundo empobrecido
Bombardeios não são especialmente desumanos. A guerra em si é desumana, e o bombardeio, que é usado para paralisar a indústria e o transporte, e não para matar seres humanos, é uma arma relativamente civilizada. A guerra "normal" ou "legítima" é igualmente destrutiva em relação aos objetos inanimados, e imensamente mais destrutiva em relação às vidas humanas.
De mais a mais, uma bomba atinge uma parcela fortuita da população, enquanto os homens mortos em combate são justamente aqueles os quais a comunidade não poderia abrir mão. A população da Inglaterra jamais se sentiu à vontade com o bombardeio de civis e, sem dúvida, eles estarão suficientemente dispostos para compadecer-se dos alemães assim que os tiverem derrotado definitivamente, mas o que eles ainda não compreenderam - graças à sua própria comparativa imunidade - é a assustadora destruição provocada pela guerra moderna e o longo período de empobrecimento que agora se descortina diante de todo o mundo.
Caminhar pelas cidades arruinadas da Alemanha é sentir uma dúvida verdadeira sobre a continuidade da civilização, pois é preciso lembrar que não apenas a Alemanha foi atacada. A mesma desolação se estende, ao menos em trechos consideráveis, ao longo de todo o caminho desde Bruxelas a Stalingrado. E a destruição é ainda mais completa nas frentes de batalha do que nos alvos de bombardeios. Nos cerca de 500 quilômetros entre o Marne e o Reno não há, por exemplo, uma ponte ou um viaduto que não tenha ido pelos ares.
Milhões de desabrigados
Mesmo na Inglaterra, estamos cientes de que precisamos de três milhões de casas e que as chances de obtê-las num tempo mensurável parecem remotas. Mas quantas casas precisarão a Alemanha, a Polônia, a URSS e a Itália? Quando se pensa na espantosa tarefa de reconstruir Colônia, Essen, Hamburgo, Varsóvia, Budapeste, Cracóvia, Odessa, Leningrado e tantas outras cidades européias, grandes e pequenas - e reconstruí-las ao final de seis anos, durante os quais toda mão-de-obra disponível foi dissipada na produção da guerra - percebe-se que deverá transcorrer um longo período antes que os padrões de vida até mesmo de 1939 possam ser restabelecidos.
Ainda não sabemos a extensão total dos estragos causados à Alemanha, porém, julgando pelas áreas que foram até agora percorridas, é difícil acreditar na força dos alemães para pagar qualquer tipo de reparação, seja em bens ou em trabalho. Apenas para abrigar a população alemã, para pôr as fábricas danificadas para funcionar e para manter a agricultura alemã longe de um colapso após a libertação dos trabalhadores estrangeiros, será necessário todo o trabalho de que a população do país puder dispor.
Se, como atualmente se planeja, milhões de alemães forem deportados para os países vitoriosos a fim de trabalhar na reconstrução, a reabilitação da própria Alemanha será a mais lenta de todas. Após a última guerra, a impossibilidade de obtenção de reparações financeiras substanciais - em poucas palavras, de fazer o inimigo pagar pela guerra - foi finalmente alcançada. No entanto, bem menos generalizada é a percepção de que o empobrecimento de qualquer país se reflete desfavoravelmente em todo o mundo. Não há qualquer vantagem em transformar a Alemanha em uma espécie de bolsão de miséria rural.
*
"Literatura e Política"
Autor: George Orwell
Editora: Zahar
Páginas: 240
Quanto: R$ 39,10 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha
"Literatura e Política"
Autor: George Orwell
Editora: Zahar
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